segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jornal do Comércio: Crise global acelera busca de parcerias

Para os especialistas, a terceirização pode ser considerada uma solução desde que haja uma correta avaliação dos custos-benefícios que o sistema pode oferecer.

Para Costa, contratação de serviços permite às empresas focar esforços no core business  e reduzir o Gabriela Di Bella/JC

Contornar os efeitos negativos gerados pela crise financeira que vem abalando o mundo desde a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro do ano passado não é tarefa fácil. Em períodos de turbulência, a primeira medida das empresas é buscar a redução de custos. É neste cenário que a aposta na terceirização logística ou em outras áreas que impactem nos custos com movimentação ganha força como uma alternativa competitiva.


Para o especialista em finanças e gestão empresarial da Trevisan Outsourcing, Roni de Oliveira Franco, em períodos de instabilidade, a terceirização pode ser considerada uma solução. Mas, para isso é preciso que seja avaliado corretamente o custo-benefício da utilização do sistema.

A terceirização de processos vem ganhando mercado não apenas como redutor de custos, mas pela capacidade de promover e desenvolver melhores práticas dentro das organizações. E, esta relação entre empresas e terceirizados tem mostrado que ela pode funcionar de maneira extremamente positiva para os negócios, contanto que seja planejada e utilize os métodos adequados para cada função.

De acordo com o professor de logística da Faculdade de Administração da PUC, Augusto Aiquel Vaz Costa, o objetivo de grande parte das empresas que terceirizam suas operações logísticas é poder focar seus esforços no seu próprio negócio - no seu core business. Mas, associado a este desejo, há também uma expectativa de redução de custos presumida em função da eficiência e do know-how oferecidos pelas empresas contratadas como parceiras. “Nos últimos dez anos começou a surgir no mercado uma oferta grande de operadores logísticos muito eficientes, o que veio ao encontro das necessidades das empresas que buscavam uma alternativa”, afirma Costa.

Mas, a opção pela contratação de uma empresa terceirizada é estratégica e cada caso deve ser analisado dentro do seu contexto. “Não se pode imaginar que a terceirização é uma fórmula mágica que vai ser positiva sempre. Ela está subordinada a uma análise estratégica”, destaca Costa. Vários fatores devem ser considerados nesta avaliação. No que se refere à logística, é preciso analisar a importância estratégica da distribuição para o negócio, se a empresa possui escala de profissionais suficiente e ativo para usar. Há casos em que a contratação de terceiros é uma alternativa de curto prazo para empresas que estão com dificuldades financeiras para investir na compra de caminhões ou na construção de áreas de armazenagem. Outra situação em que a terceirização pode se apresentar como uma boa saída é quando a empresa possui demandas sazonais.

Os serviços prestados por operadores logísticos podem ser executados com a utilização de ativos - veículos, armazéns, maquinários - da terceirizada, além da mão de obra. Ou, com o uso da estrutura do cliente. Nesta segunda situação o terceirizado participa apenas com mão de obra e, em alguns casos, também com os equipamentos, mas na planta dos clientes.

Hoje há empresas que atuam como terceirizadas em praticamente todas as áreas que dão suporte à cadeia de produção: compras, transportes, agenciamento de cargas para o comércio exterior, armazenagem, tecnologia da informação, contabilidade, rastreamento de cargas e recursos humanos.

CP Eletrônica contratou transportadora especializada

Na CP Eletrônica a terceirização do transporte é uma prática que foi adotada há mais de dez anos. Toda a movimentação dos produtos da empresa - nobreaks, estabilizadores e retificadores -, produzidos pela empresa foi repassada para a Transportes Mauá. Os equipamentos eletrônicos, utilizados para a proteção em redes varejistas, escritórios, bancos, centrais de atendimento telefônico, hospitais, concessionárias de energia, são cargas sensíveis de grande porte. O peso destes produtos pode chegar a mais de duas toneladas.

Motivos de sobra, segundo o gerente de pós-venda da CP, Marcelo Scopel, para a contratação de uma empresa especializada na movimentação de equipamentos que exigem mais cuidados durante o transporte. “A Mauá possui mão de obra treinada para a manipulação de cargas sensíveis. A equipe deles vem aqui com caminhões guincho ou plataforma e primeiramente nos ajudam a acondicionar a mercadoria, que em função das dimensões, precisa ser içada e colocada sobre a embalagem. Depois colocam sobre o caminhão, transportam até o cliente e descarregam com todo o cuidado necessário para que a carga não sofra avarias”, conta Scopel.

Com a unidade industrial localizada em Porto Alegre, a CP Eletrônica comercializa cerca de 250 equipamentos mensalmente para empresas situadas em todos os estados do Brasil. Mas, os principais clientes estão concentrados no Rio Grande do Sul e na região Sudeste, em especial no Rio Janeiro e São Paulo. Scopel destaca que é uma tranquilidade e um custo a menos para a CP o fato de o transporte ter sido terceirizado. “Queremos nos concentrar no nosso core business. Para nós não é interessante alocar pessoas no transporte. Nossos produtos têm alto valor agregado e com a terceirização da movimentação não temos dor de cabeça”, afirma Scopel.

Para garantir a segurança da valiosa carga durante a movimentação, a empresa de Transportes Mauá toma uma série de cuidados. Além de utilizar equipamentos com suspensão a ar, para proteger a carga sensível de eventuais trepidações, a transportadora também realiza cursos internamente com o objetivo de melhorar a qualificação de seus funcionários. “Não existe formação específica voltada para o manuseio das mercadorias com que trabalhamos. Por isso formamos dentro da empresa”, destaca o gerente comercial dos Transportes Mauá, André Parra.

Buyers abastece as empresas com os itens necessários para a operação

A terceirização também já chegou à área de compras, setor que requer muita habilidade nas negociações para que a empresa não corra o risco de perder dinheiro. Afinal, é para a área de compras que é destinada uma parte importante do orçamento das organizações.

Foi vislumbrando os ganhos que poderia obter para os clientes, somando conhecimento de mercado e as negociações que seriam possíveis garantindo um volume maior de compras aos fornecedores que, há 16 anos, o proprietário da Buyers Terceirização decidiu apostar neste nicho de mercado. Dona de uma carteira de clientes que inclui a Epcos do Brasil, Hexion Química e a GKN, a empresa é a responsável pela compra de itens de manutenção, reparo e operação dos clientes, assim como materiais de escritório e segurança.

O diretor da Buyers, Frederico Seyboth, explica que o foco da empresa é a compra dos itens classificados como C e B na curva de estoque ABC. “Nosso foco não é a compra da matéria-prima, mas sim de materiais que dão suporte ao core business da empresa”, explica. A principal estratégia para conseguir condições diferenciadas de preço é decorrência do volume de materiais e da relação de confiança de longa data mantida com os fornecedores. “As operações são muito transparentes não só para o cliente quanto para os fornecedores”, afirma Seyboth.

Para cada cliente da Buyers há um profissional permanentemente fazendo a manutenção online do sistema de pedidos. “Nossa intenção é mantermos um atendimento personalizado. Para isso nos adaptamos às necessidades do cliente. Compramos uma parte da sua cultura interna e vendemos uma parte da nossa”, completa Seyboth. Tanto que para a Exion Química a Buyers é a responsável pelas compras inclusive dos materiais de construção da nova planta da empresa em obras na cidade de Montenegro. Além de efetuar as compras, a empresa também oferece um serviço acessório de coleta e entrega de amostras ou mesmo de alguns itens.

O gerente de compras da Epcos do Brasil, Paulo Mejolaro, conta que a terceirização da área ocorreu ainda na década de 1990, em reação às mudanças impostas pelo mercado, como redução de pessoal e aumento de produtividade. “A empresa identificou a oportunidade de reduzir o setor e terceirizou a compra dos materiais de escritório, de partes e peças, materiais com menor custo e grande quantidade. A área interna de compras continuaria apenas com as negociações dos itens da matériaprima e dos itens com valor mais elevado. A experiência deu certo e a área permanece terceirizada até hoje”, conta.

Mejolaro destaca que nesta relação é importante avaliar o prestador de serviços. “No nosso caso, a remuneração pelo trabalho possui uma parcela fixa e outra variável de acordo com o desempenho obtido nas negociações de preços”.

Cresce procura na área de TI

A área de tecnologia de informação (TI) é outro segmento que cada vez mais é procurado para o fornecimento de serviços terceirizados. Com a crise econômica o crescimento da terceirização está se concentrando mais nos serviços de manutenção de aplicativos, de apoio aos usuários e de gerenciamento de redes.

De acordo com Pedro Bicudo, diretor da TGT Consult - consultoria de TI e negócios, especializada em outsourcing - o crescimento previsto da terceirização das atividades de tecnologia de informação, para este ano, deve ser de mais de 10%.

Mas, Bicudo destaca que é preciso tomar alguns cuidados durante a contratação da fornecedora dos serviços. É fundamental que o cliente pergunte ao fornecedor como recruta seus profissionais, como é feita a remuneração e como efetua o treinamento. “O retorno está atrelado aos profissionais existentes no quadro da empresa, eles devem ser bons tanto em performance quanto em qualificação”, afirma. “É importante que a empresa tenha uma visão de futuro para não ficar defasada, já que as tecnologias evoluem muito depressa.”

O consultor lembra ainda que na hora de escolher a terceirizada que vai prestar serviços é preciso deixar bem claro o escopo de trabalho, o que realmente o cliente espera da contratada para que as propostas estejam de acordo. “Com uma boa negociação o cliente economiza de 20% a 30%. Um bom processo de seleção produz a diferença”.

Além disso, os contratos devem ser flexíveis para poderem ser renegociados caso ocorra alguma mudança que exija alteração na empresa. “A rigidez de contrato é o principal problema de conflito entre cliente e fornecedor”, afirma Bicudo.

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